Ironias do cotidiano na Cidade Maravilhosa

Sempre adorei dirigir, até antes mesmo de aprender. Já dirigia imaginariamente quando criança, olhando os adultos. Contei os nanossegundos até fazer 18 anos, quando finalmente poderia tirar minha carteira de motorista! Já tinha uma boa noção de direção de tanto observar motoristas e também de umas práticas clandestinas esparsas em estradas quaternárias do sul de Minas Gerais, durante minhas férias de adolescência.

Gosto tanto de carro que me lembro dos carros do meu pai da minha tenríssima infância. Lembro de todos os carros que minha mãe teve com requintes de detalhes. Lembro do cheiro do carro do meu avô que me levava pras férias.Na brincadeiras de infância, era imbatível em reconhecer modelos e marcas de carro. (Hoje em dia, com tanta diversidade, já fica consideravelmente mais difícil...).

Gosto também de conhecer novos caminhos e de descobrir rotas alternativas para meus percursos habituais. Recentemente estava procurando um endereço em Jacarepaguá, um bairro carioca que conheço mal e porcamente. Esse bairro, por suas proporções gigantescas, deveria reivindicar status de cidade.Num dado momento, devo ter errado as indicações e percebi que estava me distanciando do meu alvo.Cadê retorno? Retorno não tinha. E engarrafamento não faltava, tinha acabado de sair de um de quase meia hora. Aquele erro poderia bem me custar um tempo precioso que eu não tinha. Apesar disso, eu estava disposta a fazer a coisa certa.

De olho no relógio e presa na sucessão de sinais, olhei pro lado numa mão-dupla e pensei em embicar o carro numa garagem do outro lado e criar meu próprio retorno. A faixa era dupla e achei melhor respeitar.Mais adiante, vi um posto de gasolina numa reta em que daria pra manobrar.Cheguei a entrar no posto mas desisti novamente de fazer a coisa errada, a faixa era novamente dupla! (queria eu estar em Londres e poder fazer U-turns!). Mais desanimada e ainda mais atrasada alguns sinais de trânsito lentos depois, já praguejando contra o planejamento viário da cidade, me deparo com um posto da PM um pouco recuado na margem da rua. Manobro, paro e pergunto aos policiais como fazer pra retornar. Pausa para os policiais se entreolharem antes de me responderem: “ Ah, retorna ali, ó, espera o sinal fechar.” Ali era um sinal, eu teria que ficar em cima da faixa de pedestres além daquilo que eu já tinha evitado por 2 vezes: infringir a famigerada faixa dupla.Perguntei incrédula: “ Poooooode?!” E eles: “ Pode!”, mas fizeram questão de dar partida na viatura e irem embora antes de presenciarem minhas infrações!

4 comentários :

Paradis disse...

Ainnn, muito obrigada pelo seu comentário!!! Achei tão fofo, fiquei super feliz...me dedico mesmo aos meus editoriais, que bom que eles estão cada dia melhor! :D

Desbra Vando disse...

Putz, e a cidadã querendo fazer seu papel de cidadã sente-se uma otária quando nem mesmo a própria lei encarnada respeita a legislação. Vexame, vexame. Dá próxima vez, anota a placa da viatura e liga pro Disque-Denúncia. Se é que dá em alguma coisa...Mas continue fazendo seu papel de cidadã e sirva de exemplo para inspirar pelo menos as futuras gerações!

Taimemoinonplus disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Taimemoinonplus disse...

Alô, Fronteirices, Câmbio!

Tempos atrás eu ligaria até pro bispo, pro arcebispo, pro papa.Agora eu procuro questionar meu excesso de "caixi-ice." É o tal negócio, eu vivo no Rio de Janeiro, não em Oslo.( Nem sei bem se é verdade, mas tendemos a acreditar que lá pros países nórdicos as pessoas são mais certinhas, fazem quase tudo comme il faut, não dão jeitinhos, não fazem baianadas, etc...Tudo funciona às mil maravilhas...).Deve haver algum motivo filosófico-antropológico-histórico pra nação brasileira ser como é, alguém me indica aí alguma literatura?

Quem vive com alma certinha demais numa terra do jeitinho ou arranja inimigos e sarnas pra se coçar a rodo, ou arranja úlcera gástrica.Como não estou a fim nem de uma coisa nem de outra,ando num esforço consciente pra me flexibilizar. ;-) É o que me parece mais sensato.(Não vou virar mafiosa, pode ficar tranquila, mas não vou ficar com essa expectativa de habitante da Noruega! rs)