Redes sociais e privacidade- onde raios se encontra o limite saudável?

Resisti horrores até finalmente me filiar ao Orkut. Resisti, resisti, resisti.Finalmente entrei e até gostei.Quando surgiu o convite para o Facebook logo me inscrevi e no twitter idem.Hoje me dia faço parte de todas essas redes sociais e o que observo me faz refletir.

Tudo bem que não sou parâmetro de suposta normalidade pra ninguém: sou reservada acima da média, seja em redes sociais virtuais ou não. Não sou de dar tapinhas no ombro de quem acabei de conhecer e muito menos de sair falando da minha vida privada para pessoas com as quais não tenho ainda uma intimidade conquistada com bases nos critérios de antiguidade e mérito. No entanto, as redes sociais ganharam tanta importância que é comum num primeiro contato já saírem perguntando o seu MSN, seu Orkut, etc. e tal. Já me acostumei com isso. MSN tive e hoje não uso nem por decreto, nunca vi um ralo de escoamento de tempo mais eficiente. Supostamente é uma ferramenta de comunicação, mas na prática a conversação fica o mais truncada possível: as pessoas se sentem capazes de manterem várias discussões simultâneas e, na verdade, não se dedicam bem a nenhuma delas. Cansei disso. Assim como não gosto de reuniões sociais monumentais nas quais só é possível ter conversas de elevador, também não gosto de perder meu tempo com conversas de elevador fora do elevador, instalada diante da tela do computador. Se é pra ir do nada a lugar nenhum, com licença que tenho mais o que fazer. Nem que seja meu ócio criativo.

O Orkut e o Facebook são também o reino do voyeurismo, do exibicionismo e do... hummmm, espírito investigativo. Hoje mesmo, em um show pós Brasil X Chile, um grupo festivo tirava fotos freneticamente, pareciam japoneses de férias em Paris. Eram sorrisos mostrando as amídalas, montanhas humanas unidas em abraços siameses, exibição orgulhosa de garrafas de cerveja... e a conclusão que não quer calar: aposto que essas 399 fotos estarão em breve recheando o Orkut e aparecendo nas “atualizações de amigos” de muita gente. Trezentas fotos de variação sobre o mesmo tema, só mudando que mão está segurando a garrafa de cerveja e quem na foto aparece de olhos fechados ou num ângulo não favorecedor da silhueta.

Há uns bons anos atrás, li numa matéria da imprensa que empregadores em potencial chegavam a dar uma investigada no Orkut antes de contratar seus funcionários. A matéria instruía que era preciso ter certo cuidado ao escolher de quais comunidades participar, que algumas delas não pegariam bem. Antes dessas modernidades, certas preferências privadas permaneciam privadas até que se progredisse paulatinamente em intimidade para se descobrir um dia ou nunca. O advento das redes sociais- e sobretudo da forma de utilização que as pessoas fazem de tais redes- torna moleza saber que aquela pessoa com a qual nunca dormi (e nem faço planos de...) “ama dormir de conchinha”. (!!!!) Ou seja, mal se conhece a pessoa e já se sabe que ela gosta de lingerie vermelha, de mulheres ruivas que tomam iniciativa e que fez o maternal na escola Sapinho Feliz onde era aluno da Tia Dorinha! Ao ver uma grande maioria exibindo desencanada e – ouso arriscar- de forma despudoramente exibicionista pormenores de suas biografias na grande rede, por vezes me questiono se não sou mesmo uma dinossaura com uma mania de privacidade pra lá de fora de moda.

Mas será o que explica tamanha necessidade de não apenas documentar exaustivamente a vida social, mas de ato contínuo publicá-la nas redes sociais? De se exibir a expectadores curiosos como a nossa vida é agitada, como temos tantos amigos, como nos divertimos horrores nas nossas horas de folga, como somos populares, como curtimos a vida adoidado, como namoramos, como estamos loucamente apaixonadas e somos correspondidas, como em todas as nossas viagens tiramos todas as fotos protocolares nos pontos turísticos obrigatórios e, last but not least, como nos amamos desbragadamente a ponto achar interesse em postar 45 auto-fotos sorrindo para o espelho do próprio banheiro?

1 comentários :

Ana disse...

hahahaha... teu texto é muito divertido!