Polêmica pouca é bobagem- Aborto

Um amigo me sugeriu escrever sobre a descriminalização do aborto.Tb me recomendou a leitura do assunto no blog do André Forastieri, aqui.( Recomendo,há posições interessantes dele próprio e de uma promotora de justiça com as quais concordo, mas não vou repetir aqui.)

http://blogs.r7.com/andre-forastieri/

Nunca fiz aborto.Sempre fui ultra-cuidadosa com essas questões de controle da natalidade mas, mesmo apesar de todo o cuidado, como dizem os americanos " shit happens".Da unica vez em que realmente uma dessas me aconteceu, corri pro consultório da ginecologista o mais rápido que pude e ela me prescreveu um anticoncepcional,dos mais fortes existentes no mercado, em posologia pra mamute e por vários dias consecutivos.Isso não é considerado aborto, assim como a atual pílula do dia seguinte.

Acho que sou exceção.Não por nunca ter feito aborto e nem por ser santa, mas pela minha formação que, conjugada com uma personalidade de forte tendência neurótica, culminou numa pessoa de responsabilidade acima da média nessas questões.Não podia ser diferente pra uma filha de professora de Biologia que deve ter me dado o primeiro livro de uma farta literatura especializada lá pelos 8 anos, o " De onde vem os bebês." ( A julgar pela eficácia comprovada no meu caso, recomendo.rs

http://www.submarino.com.br/produto/1/20447/de+onde+vem+os+bebes


Qdo criança, lá em casa era praticamente uma livraria especializada em temas biológicos,sobre sexualidade humana e, consequentemente, contracepção.Se há alguém sem desculpa alguma para não exercer a sexualidade de forma mais-do-que-consciente, esse alguém é quem vos escreve.Estudei em colégio católico tradicional onde as irmãs, obviamente pregavam a abstinência como a forma mais eficaz de controle da natalidade.Não sei se muita coisa mudou na posição da Igreja, mas nas aulas de religião do colégio, era dito que sexo só depois do casamento e, mesmo assim, não por prazer, só com o objetivo de procriar.( Fui católica durante a infância,fiz primeira comunhão mas na adolescência comecei a questionar esses e outros ensinamentos e saltei de banda ficando agnóstica por uns bons anos.)

Toda a minha formação pessoal contribuiu fortemente para que eu nunca me envolvesse em episódio algum de gravidez não planejada.Mas as leis não foram feitas pra mim, foram feitas pra sociedade de forma geral, para o homem-médio e muito menos para os que fizeram o voto de celibato.Não vamos tapar o sol com a peneira: conheço pencas de pessoas que já fizeram aborto.Tb conheço outras pencas de gente que se arrisca em roletas russas sexuais e ,por mero acaso, não engravidam.Conheço outras pencas de pessoas frutos de gravidezes não planejadas ou que tiveram filhos indesejados.Conheço pencas de gente com problemas familiares e financeiros sérios em virtude dessas gravidezes não-planejadas.

A lei é, ou deveria ser, feita pra a maioria e não para os fora-da-média.Ainda mais no Brasil, um país continental, con tantas diferenças regionais e certamente com muita gente por aí em regiões menos desenvolvidas sabendo bem pouco ou quase nada sobre anticoncepção e com bem pouco acesso à rede médica pública.Haveria muita coisa a ser feita nesse sentido, muitas políticas públicas instruindo mais a população e dando mais acesso a métodos anticoncepcionais.

Claro que gravidez indesejada não é privilégio das classes mais baixas ou das populações ribeirinhas do Amazonas.Acontece aqui, no Rio, e até com pessoas bastante esclarecidas que, por um motivo ou outro, não se precaveram ou a precaução falhou.Não acho que aborto devesse ser método anticoncepcional, ainda mais se praticado de forma corriqueira, mas tê-lo como crime passível de juri popular, já é um senhor exagero.Mesmo legalizado, não dá pra fazer aborto como se obtura um dente, óbvio que a questão é mais delicada, mas daí a chamar de crime passível de pena, tanto para a gestante como para o médico, me parece um pouco demais, uma grande hipocrisia, um tapar o sol com a peneira inadmissível.

Pessoalmente não gostaria de ter que recorrer a um aborto, mas não me acho no direito de julgar as opções alheias, ainda mais desse calibre, com desdobramentos por toda uma vida e relações diretas com várias outras vidas.Não sou defensora do aborto, mas sou ardorosa defensora de sua descriminalização.Tenho minhas crenças religiosas, éticas e pessoais, mas o Estado é laico e não deveria se submeter à fé de ninguém,de qual religião fôr.Fé é pessoal, política pública e lei é pra todos.É muito fácil se dizer contra a descriminalização do aborto e ficar bem na foto num
"Que todo mundo seja consciente ou pague o pato".

Tenho uma frase que costumo repetir ad nauseam para os meus amigos mais chegados: " Sobre sexo e dinheiro, a maioria costuma mentir." Suspeito que muita gente por aí que sustenta que o aborto deve continuar sendo crime, o praticaria clandestinamente em certas condições, qdo já não praticou... ( parece que em 2007, 65% da população brasileira concordava que o aborto deveria continuar sendo crime.)

Paternidade e maternidade é coisa mais-do-que-séria.Ultra-séria.Definitiva.( Mesmo que o filho morra.)Outro dia estava numa fila e atrás de mim havia um casal com uma menininha de uns 6 anos.A menininha percebeu a minha tatuagem nas costas ( uma borboleta realista), adorou e mostrou pra mãe.A mãe reagiu entusiasticamente tb e dali a pouco a família toda estava me elogiando pelas costas.Qdo virei pra agradecer, a mãe me perguntou em que estúdio eu havia feito, qual o tatuador...e, em tom confessional meio encabulado, me disse: " aaaai, eu adoraria ter uma dessas, mas não tive coragem." A resposta brotou em frações de segundo da minha boca, completamente espontânea:" Meeeeeedo?(com entonação incrédula)Ora,francamente, medo de que?! Da dor, de uma decisão definitiva na sua vida ou ambos os casos?! Vc já tomou uma decisão muito mais séria há alguns anos atrás, apesar desses medos, tenho certeza.Como dizia meu avô: " Quem pode mais, pode menos." Com relação ao medo da dor e de decisões definitivas, comparada à maternidade, tatuagem é fichinha.Ainda mais de borboleta! rs" Vi que o rosto da mulher se iluminou, a ficha caiu e provavelmente em breve meu tatuador vai ter uma nova cliente batendo por lá...rs

2 comentários :

Beto Benjoim : ) disse...

A natureza dispôs o homem como um ser capaz de eliminar sem se aperceber de milhões de espermatozóides a cada ejaculação e a mulher dispensar sem nem se dar conta um óvulo por mês, durante a maior parte da vida...
Concordo que não deva ser como obturar dentes, mas, também, não precisa ter tanta pressão da sociedade na decisão pessoal...nem é discutir se é ético ou imoral, mas, tirar esse poder da sociedade sobre a pessoa..depois discute-se a moralidade do fato...

Quanto ao momento que se pode considerar aborto, depende de pra quem, né...a igreja considera um mal o uso de camisinha, como sendo algo a impedir a ação natural que traria uma vida a face da Terra...

Aí que tá o cerne da coisa, pra mim...tudo e qualquer coisa que perguntarmos ao outro é bem provável que a sugestão do que fazer não seja de todo o que realmente queremos...imagina "obrigando-se" a seguir o que o outro quer, como é o caso dos que são contra aborto a obrigar quem quer fazê-lo a ter aquela criança...aff

É isso aí mesmo que dizem, o corpo nos pertence e devemos ter o direito de fazer o que quisermos com ele...

Bloqueios com regras e leis não impedem ninguém de fazer nada, só jogam pessoas decentes para um tipo de criminalidade que, na verdade, nada tem a ver com criminalidade mesmo de fato, só o é em função da ignorância social...

Há pessoas que vão sofrer total por ter feito aborto? Bem, há pessoas que sofrem total ou viram carrascos, etc, por terem tido um filho indesejado...o mal que a pessoa "pode ser" que plante para si não é nenhuma desculpa para manter-se a lei anti-aborto...

Canto do Dudu - Dudu Lopes disse...

O problema com a discussão sobre o aborto é que o "X" da questão não é o aborto em si mas reconhecer quando um ser humano se torna ser humano.

E estabelecer isso é um problema. E tudo o mais fora disso (moral, ética, a liberdade de opção da mulher, a superpopulação, se está ou não na palavra de "deus", etc) é só uma questão de quem grita mais alto, e não uma discussão real.

A ciência empurra a história de associar a presença do sistema nervoso como sinal da existência de um ser humano, a maioria dos religiosos associa a criação do ser humano pela concepção e outros pela ejaculação do esperma, levando em consideração que o espermatozoide já é um ser humano (se essa última for a verdade, imagina, descascar uma banana é assassinato em massa).

Como discípulo de Swami Tilak deveria partilhar da opinião dele de que aborto é assassinato, mas isso iria contra um outro ensinamento dele próprio, não imitar cegamente ninguém, nem mesmo o Guru.

Na minha experiência como ocultista, até num aparente ser humano adulto pode não estar um ser humano; algumas crianças de até 1 e meio ou 2 anos flutuam entre presentes ou ausentes em seus corpos. No momento da concepção um ser humano pode tomar posse de seu corpo, em outros casos pode ser em algum momento no período da gestação, e em outros pode ser após o nascimento. Em qualquer caso, com ou sem um ser humano habitando o corpo, havendo a fecundação, o aborto sempre traz problemas ocultos que interferem na vida física da mulher e do homem sub-repticiamente.

Mas como provar isso? Não posso. Assim como os religiosos não podem provar o seu ponto de vista e igualmente a ciência não pode provar o seu.

Daí, a minha opinião atual sobre o aborto é que não deveria ser nem legalizado nem criminalizado, mas deixado a cargo do bom ou mau senso de cada um.