MENTIRA: é mesmo a graxa que faz a engrenagem do amor rodar sem sobressaltos?!

Ivan Martins, editor-executivo da Revista Época, tem um interessante artigo recém-publicado sobre o tema. A+MENTIRA+INEVITAVEL.htm Ele tem o dom de saber escolher bem seus temas...e isso já representa grande parte do caminho andado para um bom texto! Aproveitando-me disso, não tenho pudor algum em me apropriar de temas palpitantes levantados por terceiros. :-)


É fato que as pessoas mentem, mas porque isso é tão comum nos relacionamentos amorosos homem-mulher?! (Bom, há também os relacionamentos homo-afetivos, mas desses pouco sei.)


Muitas vezes a mentira já começa no momento do flerte ou, como preferem os mais jovens, do "mole".E depois se perpetua, ou como forma de se fazer mais interessante aos olhos do outro, ou como suposta forma de se evitar conflitos.Vejo comumente homens morrendo de medo da reação de suas mulheres às coisas mais simples como, por exemplo, sair pra beber com amigos.Com isso, preferem mentir do que falar a verdade, terminam fazendo o que desejam- que não é nada condenável, por sinal-e ainda não pagam o preço de se indispor com a parceira.Mentirinha boa, do bem.Dá pra entender essa lógica, embora pessoalmente ache que a pessoa pode ter menos desgaste, mas perde uma boa chance de afirmar diante do outro quais são suas necessidades e seus limites.Constrói uma imagem falsa, de uma pessoa que se satisfaz completamente no namoro/casamento e com isso pode prescindir completamente do contato de amizade-social com outras pessoas num idealizado porém irreal " meu amor me basta".


Não sei quanto a quem me lê, mas pra mim amigos são cruciais.Mesmo no auge da paixão sinto necessidade de contato com meus amigos mais próximos e necessidade de vida social de alguma forma.Claro que quando embarcada numa relação amorosa não tenho necessidade alguma de frequentar micaretas ou bailes de carnaval no SCALA, até mesmo pq nunca tive essas necessidades mesmo estando solteira, mas preciso de algum oxigênio de fora da relação.Além de precisar, acho importante para o relacionamento que ambos tenham amigos, contatos sociais e vida própria.Isso é, claro, um estilo pessoal meu.Já conheci casais que funcionam muito bem no estilo " onde-vai-a-corda-vai-a-caçamba" ou " casal siamês".Para eles, é ótimo.Se vc tem um amigo ou amiga num relacionamento assim, ou vira amigo necessariamente da outra parte, e no mesmo grau de intensidade da sua amizade original, ou aquela será uma amizade meramente protocolar para eventos anuais como aniversários.


Já reparei que os homens, de forma geral, sempre partem do princípio que as mulheres são ciumentas e possessivas, devem achar que isso está no nosso DNA.Sinceramente, nunca parei para reparar se as mulheres, em geral, fazem o mesmo.Provavelmente também o fazem.É uma espécie de defesa para evitar problemas.O curioso é que pode ser até ciúme retroativo, com relação à águas passadas que não movem moinhos.Ou até movem, mas são páginas viradas.Agora se está numa nova relação e aquelas relações do passado tiveram sua importância, sim, e daí?! Negar o passado é tapar o sol com a peneira.


Estou profundamente convencida que cada parceiro é um kit: não só sua individualidade, mas um conjunto muito maior que abrange a forma como ele viveu sua infância, sua adolescência, sua relação com os pais e os irmãos, suas experiências romântico-afetivas e sexuais pregressas.A grosso modo, quando nos relacionamos, por tabela nos relacionamos também com todas essas influências na vida da pessoa e sobretudo com o produto da metabolização dessas experiências todas.Cada ser é um universo cheio de meandros e sutilezas, algumas das quais só conseguimos comprender melhor - e até tolerar ou ajudar a desatar- se tivermos acesso ao passado da pessoa.É por isso que minha posição pessoal é sempre de querer saber o máximo sobre a pessoa com a qual me relaciono, vou querer ouvir tudo que ela estiver disposta a me contar.


No entanto,já percebi que normalmente não é assim que a banda toca.Muita gente detesta se revelar mais profundamente e tb morrem de medo de acessos de ciúmes da outra parte ( " E se eu revelar que já tive um caso com aquela minha amiga, será que minha namorada vai dar ataques e dificultar nossa amizade daqui pra frente??!!" Jogar na minha cara: " Ah, aquela amiga que já deu pra vc te ligou!") Essa inquietação é muito legítima e procede em grande parte dos casos.Grande parte das pessoas mantém, em idade adulta, um ciúme infantil.Cresceram biologicamente, mas continuam agindo emocionalmente como se fossem crianças de 5 anos, morrendo de ciúme da mãe que está dando atenção à outra criança.Praticamente se desintegram se perceberem que não são o foco de atenção ou afeto único e exclusivo.Ora, gente, isso é uma utopia! E a gente nem precisa disso pra sermos felizes, façam-me o favor!


Em nossa sociedade, há o senso comum de que o ciúme é prova de amor.Não é à toa.Como grande parte não consegue superar os ciúmes infantis ( daquele tempo em que a dependência da mãe é caso de vida ou morte, se ela não nos amar, não nos cuidar, nos proteger e nos alimentar...sucumbimos!!!! Terminamos tendo tendência a carregar essa necessidade de aprovação total vida afora, mesmo em relacionamentos adultos.Isso é a porta do inferno aberta com o Diabo em chifres e tridente fazendo " vem cá" com o dedinho!), inventaram esse sofisma.E muita gente acredita tanto nisso que, quando arranja uma namorada que não dá ataque de ciúmes, fica numa insegurança danada.Concordo com o Duque de La Rochefoucald, que disse: " Il y a dans la jalousie plus d'amour-propre que d'amour." ( Há no ciúme mais de amor próprio do que de amor.)


Bem disse Cazuza, na música sugestivamente chamada de " Maior abandonado":


Eu tô perdido


Sem pai nem mãe

Bem na porta da tua casa


Eu tô pedindo


A tua mão


E um pouquinho do braço


Migalhas dormidas do teu pão


Raspas e restos


Me interessam


Pequenas poções de ilusão


Mentiras sinceras me interessam


Me interessam, me interessam


Eu tô pedindo


A tua mão


Me leve para qualquer lado


Só um pouquinho


De proteção


Ao maior abandonado


Teu corpo com amor ou não


Raspas e restos me interessam

Me ame como a um irmão


Mentiras sinceras me interessam


Me interessam




Num texto sobre a mentira, não posso deixar de abordar um conceito importantíssimo: o da verdade burra.Não sou a favor da verdade ampla, real e irrestrita 24 horas por dia, 7 dias por semana.Há um instituto utilíssimo chamado OMISSÃO.Entre a mentira e a omissão, há sempre uma ampla margem de manobra.


Por outro lado, minha experiência me diz que nem sempre quem pergunta realmente quer saber.É preciso se ter sensibilidade para perceber as nuances.Eu mesma já me estabaquei completamente e trouxe questões de difícil solução para um relacionamento por não ser capaz de avaliar corretamente se as perguntas eram meramente retóricas.Parti do princípio que eu, quando pergunto algo, é porque sempre quero mesmo saber e tenho nervos para abrir a caixa de Pandora.Confio ( talvez num excesso de confiança, quem sabe...) que vou saber como lidar com as novas informações, saber metabolizá-las e transformá-las num resultado final positivo.


Nesse tema " nunca" e " sempre" não se aplicam.É preciso analisar caso a caso, e com extremo cuidado.Sou contra a institucionalização da mentira, assim como sou contra a apologia nonsense da verdade.Mas confesso que intimamente almejo relacionamentos, de amizade ou namoro, que me permitam um grau de sinceridade acima do que é comumente aceito socialmente.Meus amigos próximos sabem todos desse meu apreço pela verdade, não como uma bandeira do politicamente correto e muito menos em defesa da verdade-burra ( que muitas vezes é cruel, mas sempre convenientemente travestida de bondade.) A verdade pela qual tenho apreço é a verdade pragmática, aquela que me ajuda a me aprimorar ou a entender melhor o outro.


1 comentários :

Gustavo disse...

Há, há, há!!!
O Cazuza devia ser um mentiroso daqueles! Na outra música ele diz: "Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão"...

O Renato Russo certa vez comentou que a temática dele e do Cazuza era muito próxima, mas que ele nunca escreveria versos como " Raspas e restos me interessam"...

Pessoalmente acho que existe o amor perfeito e o amor possível. O perfeito é uma idealização, uma pureza e harmonia que são difíceis de se alcançar.
O amor possível é aquele que vai existir apesar dos tantos defeitos e imperfeições humanas.
Querendo ou não a mentira faz parte da vida de todo mundo. E quem disse que nunca mentiu, provavelmente está mentindo!!! Kkkk
Não acho que ela seja positiva, mas por outro lado nem todos estão preparados, ou mesmo querem conhecer a verdade cristalina.
Há uma corrente filosófica que radicaliza mais ainda, afirmando que não há mentiras nem verdades, apenas pontos de vistas. Eu discordo: Há opiniões, mas há fatos irrefutáveis, há verdades cristalinas, mas que nem sempre são alcançadas por todos...