Simplicidade Voluntária

Antes da descoberta oficial da existência do movimento no Brasil e em outras partes do mundo, eu já estava num movimento individual de questionar os motivos de ter tantas coisas em casa, em sua maioria tralhas ( coisas que não melhoram a sua qualidade de vida, muito pelo contrário.).Comecei esse processo interno na mesma época que minha amiga Helena e foi bárbaro ter alguém próximo questionando e pondo em prática novos princípios junto comigo.Depois conheci outras pessoas que foram verdadeiros marcos-vivos no meu processo ( que eu carinhosamente batizei de " desfrescurização."), mas a Helena permaneceu minha companheira diária de " socialização de inquietações" por longo e intenso período.Ainda hoje continuamos, de tempos em tempos, trocando reflexões.


Este foi o primeiro vídeo que assisti na imprensa nacional sobre a SV.


http://www.youtube.com/watch?v=lfaxkZBw9m0


Fui cada vez me interessando mais sobre o tema, descobri uma comunidade no orkut onde pude interagir com pessoas vivendo o mesmo movimento que eu, cada uma no seu ritmo e com sua interpretação.Passei a questionar intensamente minha forma de consumir ( e sobretudo de acumular tralhas) e tem sido um processo terapêutico, com altos e baixos sim, mas sempre com um saldo extremamente positivo.


Um amigo meu, que anda sumido, costumava dizer que " compramos estados mentais" e realmente é incrível como há muitos mais e variados motivos, conscientes ou inconscientes, por detrás do nosso ato de comprar do que a necessidade objetiva daquele objeto.( Mal-comparando, é como se alimentar por gula, ansiedade, seja lá o que fôr, exceto fome...).É incrível como somos levados a comprar por mil motivos, e em geral a maioria dele não tem xongas a ver com a necessidade objetiva daquele objeto.Algumas vezes até aquela nova compra vai complicar nossa vida, dar mais trabalho, mas mesmo assim vamos lá e cometemos o ato contra nós mesmos!


Trabalhei como vendedora, fiz cursos e li livros justamente pra saber como estimular o desejo de consumo nos outros.Vi na prática gente comprando por impulso e se arrependendo depois.( Inclusive eu mesma!) Virei observadora dos outros e de mim mesma e venho aprendendo muito com isso.( Aleluia!)


Mulher, por exemplo, compra muito como auto-indulgência.Teve um péssimo dia no trabalho, se estressou muito, ficou frustrada por uma ou outra questão, brigou com o namorado, teve o carro arranhado ( a lista de contrariedades é infinita...) e dali a pouco surge a frase infernal na cabeça: "Ah, quer saber?! EU MEREÇO!" Quando uma mulher pensa ou pronuncia essa frase, senhoras e senhores, todo cuidado é pouco!Ou ela vai cair de boca em alguma iguaria de valor calórico estratosférico inversamente proporcional ao valor nutricional, ou vai comprar algum item absolutamente dispensável! ( Não tenho perfeito conhecimento de como funcionam os homens nesse sentido, mas tenho impressão de que a maioria não sofre com um quinto sequer das arapucas de consumo femininas.Conheço várias amigas que adoram bater perna em shopping e não conheço um único representante do sexo masculino que, ou pelo menos o admita publicamente, faça o mesmo.Já conheci homens vidrados na última traquitana tecnológicas do momento, já conheci o " louco do supermercado" daquele que sempre sai farejando novidades, mas jamais conheci um espécime masculino que sofresse, em toda a sua extensão, das compulsões de consumo femininas.


Comprar dá "barato", é fato.Dá uma sensação de poder.Parece que é simples, mas não é.Parece, muitas vezes, que estamos fazendo o que queremos verdadeiramente, mas não estamos.Conheço gente que adora tanto o ato de comprar que sai comprando freneticamente coisas de presentes para terceiros como forma de abrandar a culpa.Conheço gente ( inclusive já fui assim lá pelos meus 18 anos) que termina comprando o que não quer e nem cai bem porque fica sem graça de dizer pra vendedora que não vai levar nada, apesar de ter experimentado a loja inteira.


Coisas também podem trazer uma sensação falsa de segurança.Por exemplo,se eu tenho muita roupa e muito sapato, teoricamente estou preparada para qualquer ocasião.Podem me chamar pra uma recepção com a rainha da Inglaterra que me arrumo sem pestanejar! Ledo engano! Pra começar, vamos parar com essa besteira que na vida tem-se que estar preparado pra qualquer ocasião que não adianta, pra muitas nunca estamos preparados mesmo e na hora teremos que nos virar! ( Se até pra morte, que é a unica coisa absolutamente certa na vida, a gente nunca parece estar preparado, tanto a nossa, como a das pessoas queridas, mesmo que elas tenham 99 anos e estejam em coma há 10...) Segundo: ter muita coisa não significa que as coisas foram bem compradas.Há mulheres que tem 10 pares de escarpim no armário, 10 vestidos longos e uma vida social que em nada justifica esse investimento.Se a Carla Bruni tiver 10 vestidos longos e 10 escarpins no armário, não vou considerá-la uma desvairada, mas se fôr eu a acumular uma quantidade dessas, a coisa muda de figura!!! Se um corredor tiver 10 pares de tênis de corrida no armário é uma coisa, se eu - que não corro há anos- tiver, alguma coisa está inadequada.( A propósito, só tenho um par de tênis de corrida, que uso- ou costumava usar, glupt!- para caminhadas ao redor da Lagoa, nas Paineiras, na Floresta....).


Na minha trajetória SV, cheguei a limites.Minhas amigas mais próximas e minha mãe se horrorizaram, achavam que eu estava virando monja ou doida.Cheguei a ter pouquíssima roupa, meu armário era um grande vazio.Praticamente parecia um personagem de história em quadrinhos, já reparou que eles estão sempre com a mesma roupa?!Todo mundo praticamente já conhecia todas as minhas, de cor e salteado.Chegar a essa nível foi importante para conseguir fazer viagens de 3 meses com apenas uma malinha de bordo ou uma mochila de 9 quilos meio vazias.Curti horrores esse desprendimento, me deu uma baita liberdade pra viver experiências únicas.Provei pra mim mesma que sou capaz de viver com pouco, seja gastando bem pouco, seja com poucas posses.Precisar de bem pouco é libertador, se tira um peso das costas! ( Literalmente inclusive qdo se está viajando de mochila...).Se aprende a ver a vida por outro ângulo e com menos seguranças ( que muitas vezes são meramente psicológicas, mas nem por isso menos importantes...)


Já tive tralha demais, depois fui para o extremo oposto de ter coisa de-menos ( e isso inclui itens variados como vestuário, livros, cosméticos,comida na geladeira, artigos domésticos...), agora estou buscando o caminho do meio, o tal do Buda, que, por incrível que pareça é o mais difícil.Pecar por falta ou por excesso é muito mais simples do que pesar caso a caso.

7 comentários :

Jandira disse...

Oi amiga,
Bacana sua trajetória. O 'barato' é a gente perceber, termos consciência (pelo menos em parte, he he) dos nossos atos, motivações, etc.
Acho que o 'resto', vem por acréscimo, né?
Pior são os que são levados de roldão, e nem se apercebem de que são (somos) manipulados, viramos apenas 'consumidores'.
beijocas, parabéns - blog inteligente, 10!

Taimemoinonplus disse...

Valeu, Jandira, pela sua visita! ;-)

Gente, a Jandira foi quem, há anos atrás, criou a comunidade SV no orkut, onde até hoje rolam muitas discussões interessantes sobre o tema!Para quem usa essa ferramenta, fica o convite!

:-)

Eu disse...

Adorei o texto! Você já tinha me falado várias coisas, mas o texto e o vídeo foram bem elucidativos. Eu já tenho feito algumas coisas por necessidade mesmo (pela escolha da minha nova profissão) e foi mesmo o incentivo que faltava, porque sobre a grande maioria das mudanças, eu me sinto bem mais feliz. Agora vamos atrás do equilíbrio =)

Xero!

Taimemoinonplus disse...

Eu:

Força na peruca!!! rs Nova profissão?! Essa não estou sabendo...Preciso dar um F5! rs

Xero!

Gustavo disse...

Interessante questão!
Desde os tempos do tacape que o homem se relaciona om os objetos, eles estão aí para serem nossos aliados, e não para nos escravizar! Perguntaram uma vez para o Phillipe Stark sobre esse culto aos objetos de design, se isso não seria uma forma de materialismo, essa coisa das pessoas passarem a amar os objetos...e ele respondeu de forma irônica e surpreendente: Não! Os objetos é que tem que nos amar!
Particularmente acho legal investir em produtos de boa qualidade, duráveis e que venham de fato suprir nossas necessidades. Pode ser possível viver com conforto e equilíbrio!

Beto.Belê disse...

.

Desfrescurização foi maraaa...kkkkkkkkkk...

:)

Bem, eu vim de origem bem pobre, bem mesmo, mas, não deixei de ter oportunidades desde cedo, já na adolescência...

Paralelamente, sempre foi muito ligado com a vida mais natural...mochileiro, leitor assíduo de coisas orientais e filosofia em geral, além de tudo sobre religião, as várias...

Sempre fui abandonando caminhos que me levariam a uma prisão de conceitos...eu sempre amei estar livre para ir para onde quisesse, mesmo que não fosse...acabei não indo tanto mesmo...mas, ainda hoje, 46 anos, não me arrependo de nada que abandonei...e olha que eu podia estar bem arrumado na vida já há quase 2 décadas...

Mas, sinceramente, meeesmo, acho que foi a coisa mais acertada que fiz.

Se desprender das coisas que a sociedade impõe faz você vivenciar muito mais o você mesmo, independente das possibilidades de ir e vir, comprar, etc...

Essas coisas, no fundo no fundo, parecem um poder, mas, são uma prisão, motivo de todo estress e frustrações de hoje em dia.


É aquele papo, se adeuqa a muita coisa na vida, principalmente a social;

"Menos é mais."

Rede simplicidade.net disse...

Oi, Analu.
Congratulações pelo belo texto: inspirador e com o gostoso sabor de experiências.
Próximos, além de distância e tempos.
Abraço fraterno.
Jorge