Aprender a envelhecer

Hoje em dia, com tanta opção em vários ramos para se agarrar desvairadamente à juventude perdida, é preciso -mais do que nunca- se estar disposto a aprender a envelhecer.


Não é o tipo de coisa que se nasça sabendo. Não é fácil pra ninguém, mas parece ser mais complicado ainda para mulheres.Com especial agravante para as muito belas desde cedo, que se acostumaram com o ar de embevecimento que a beleza costuma impôr.( Já está mais do que provado em testes com bebês, que reagem pronta e claramente a desconhecidos belos, que somos muito susceptíveis à beleza alheia, e desde a mais tenra idade.No entanto, com a socialização, alguns vão aprendendo a disfarçar isso muito bem, às vezes até de si mesmos...)


Todos conhecemos pilhas de gente que envelhece mal, tanto visualmente como psicologicamente.Temos dúzias de exemplos de como cirurgias plásticas repetidas sem critério podem chegar a resultados absolutamente ridículos.De como tem gente que envelhece e fica cada vez mais chata, mais mal-humorada e mais cheia de manias.De criaturas que não passam recibo de idade de jeito nenhum e, mesmo com 80 anos, se recusam a ser chamadas de avós pelos próprios netos.



Eu não gostava de ser chamada de tia. Como não tenho sobrinhos, tratava-se sempre alguém forçando a barra de uma intimidade inexistente. Já quando comecei a ser chamada invariavelmente de senhora, revi meus conceitos.É, talvez fosse mesmo algo complicado envelhecer... Agora já metabolizei.Acho que já estou preparada até para me chamarem de coroa hoje ou qualquer dia desses.Comprei até um colarzinho com uma coroa de verdade para comemorar o fato.



Com um avô que envelheceu muito bem sob vários aspectos, tive algumas lições desde cedo.Ele, que sempre aparentou ter muitos anos a menos do que sua real data de nascimento, achava um completo contra-senso diminuir a idade.Ou falava a verdade exata ou arredondava pra cima.



Algumas pessoas que mentem a idade de forma contumaz já me advertiram que cedo ou tarde acabarei-como elas-sucumbindo.Dizem que há um preconceito danado contra gente mais velha, que as pessoas mais jovens se chocam e mudam completamente o tratamento ao ouvirem claramente a nossa idade. Alegam que uma coisa é imaginar a faixa etária de alguém, outra- muito mais grave- é ter certeza.Eu já ando chocando alguns- ou, pelo menos, são bons e gentis atores.





Posso estar cuspindo previamente no prato que comerei daqui a uns anos, mas suspeito que seguirei mesmo a tradição familiar. (Minha mãe aos 66 já vive dizendo que tem 70 anos...) Pelo que me consta, somos de um clã minoritário.



Envelhecer, com exceção da opção radical de se morrer jovem, é obrigatório.Já amadurecer é completamente opcional.Isso me lembra de uma entrevista com o espirituoso Washington Olivetto que, ao ser perguntado como foi ter alcançado o sucesso profissional tão cedo, respondeu: "Ótimo! assim pude ser babaca na hora condizente."



Imaturidade é um modelito que definitivamente cai muito pior em gente com mais idade.Ando me esforçando bastante e há uns bons anos pra tirá-lo definitivamente do meu armário.Com a idade, menos coisas caem bem, tanto no corpo como no comportamento.

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