Muito além de uma comida fria

No quesito Simplicidade Voluntária e alimentação, vos relatarei um fato verídico, ocorrido comigo ainda esta semana.

Estávamos eu e uma amiga numa sala de espera. Tendo chegado a hora da minha refeição, britanicamente saquei da bolsa minha marmita e comecei a comê-la animadamente. Minha amiga, como já havia feito de outras vezes em situações semelhantes,  inquiriu-me sobre o conteúdo da mesma. Satisfiz sua a curiosidade.Ela soltou algo como um " Não sei como você consegue!" Continuei a comer. Animadamente como antes.

Dali a pouco ela me solta um adendo:  " Ainda mais fria??? Ah, realmente não sei como você consegue! "  E dali a pouco foi se informar na cantina sobre o bolo que perfumava o ar.

Naquele dado momento,  não achei  que valeria a pena- sem a mais pálida expectativa de êxito e ainda mais pagando o alto demais preço de ter que parar de comer estando com fome- explicar que tudo ia muito além de uma comida fria. Mas, tendo reativado o blog recentemente, considerei pertinentes maiores reflexões que agora faço, dessa vez tendo alguém- você- por testemunha.

Minha amiga não suspeitaria, mas aquilo poderia não ser "apenas" uma marmita fria de cardápio franciscano para quem foi criada numa profusão copiosa de estímulos papilares, numa família onde comida, abundância e variedade eram conjugadas- de forma orgulhosa até- necessariamente na mesma frase.

Aquilo poderia não ser apenas uma comida simples, beneditina ou carmelita- e ainda por cima fria!!!- para quem, até bem pouco tempo atrás, tinha o vício arraigado e diário de fartas refeições em restaurantes, muitas vezes tendo espantado pessoas. Como da vez em que o amigo, encorpado nadador de grandes distâncias oceânicas,  confessou sua surpresa ao perceber que fizera mal em não aceitar o quanto antes minha oferta: dividir uma travessa generosa de carne seca com aipim. Mal acostumado com mulheres que, embora alardeiem socialmente serem comilonas, largam o prato muito antes da metade e saltam sobre o cardápio das sobremesas, não levou fé quando retruquei com um realmente sincero  " Acho bom você começar a comer logo." quando ele disse " Ah, eu aceito daqui a pouco."

Para alguém que cresceu acostumada à grandes quantidades e variedades de comida, sempre elaboradas por terceiros- geralmente em restaurantes e, mais remotamente, por empregadas domésticas ou pela minha mãe- aquilo poderia não ser, como DE FATO NAO ERA, apenas uma comida simples e fria.Era mais.

Era e é a minha escolha consciente e deliberada em trocar um modo de vida de exagero, desperdício e eterna dependência da capacidade de cozinhar alheia por uma nova fase de imensa satisfação pessoal na autonomia e na simplicidade, inclusive alimentar.






3 comentários :

Cíntia Milanese disse...

Te entendo perfeitamente, assim como compreendo a descompreensão da sua amiga hehehe

Ando vivendo isso ultimamente, mais do que achei que conseguiria :)

Boa reflexão.

Obs.: Fiquei curiosa - O que você estava comendo? Bjs.

buscandoequilibrio.org disse...

Começa desde cedo, com a vergonha de levar lanche de casa. Comprar na cantina da escola é sinônimo de "status". Eu passei por bullying (leve) porque levava meus lanches de casa no segundo grau. Depois o pessoal cresce com estas idéias, que se juntam à cultura familiar latina de abundância, daí ferrou, não entendem mesmo quem opta por fazer diferente. Não querem nem abrir um pouco o pensamento para entender o porquê: te rotula de maluca e pronto!
Vem morar em Montreal que você pode almoçar no metrô e ninguém nem tá aí nem pra você! Isso aqui é mais normal que o sol se pôr.
Que bom que reativou o blog! Recebo suas atualizações pelo wordpress. :-)
Beijocas
Carla Pancha

Taimemoinonplus disse...

Cintia:

Nada demais: olho de lagartixa com asa de morcego! rs


Carla:

Adorei o " cultura familiar latina de abundância" , super identifiquei! rs Realmente rola a vergonha de levar lanche de casa, no meu tempo de escola já rolava...No documentário " Muito além do peso" ( recomendadíssimo), uma nutricionista diz que seus pequenos pacientes tinham tanta vergonha de comer fruta trazida de casa diante dos colegas que comiam no banheiro! Parece que o " mico" é proporcionalmente maior qdo o alimento é saudável! =/ Eu nem preciso ir morar em Montreal pq já fiz isso algumas vezes no metrô do Rio mesmo, para horror da platéia! rs ( Mas tenho minhas técnicas, sou low profile! rs)